Eu sou uma cético-científica que curte o imaginário místico. Acreditar em Astrologia depois de Kepler é algo incompreensível pra mim, mas amo ser peixes com ascendente em escorpião (o que quer que isso signifique), amo ser dragão no horóscopo chinês (o único ser mitológico desse zodíaco, e que aí aparece provavelmente numa citação demozoocrática aos esqueletos de dinossauros encontrados antepassadamente a Darwin).
Que começou com o convite feito pela Ana Paula Caldas por sugestão da Luciana Benatti, pela minha participação no seminário na Faculdade de Saúde Pública / USP - que embora tenha sido para mim um prazer imenso, pensei que nunca mais me convidariam pra falar em lugar nenhum, tanto eu tremia, tanto as palavras não me vinham. Porque eu sempre digo, eu penso devagar, gente, por isso a escrita me flui. Já a fala... eu sou do tipo que as pessoas começam a completar minhas falas pelas longas pausas que faço procurando a palavra certa. E quase sempre completam diverso do que eu ia dizer, o que me deixa com a sensação de que não estou mesmo falando coisa com coisa.
(E então sei dizer que além da oportunidade de falar novamente sobre o parto que eu acredito, uma coisa que me deixou feliz foi sentir a inclusão da minha dislexia rs).
Daí que foi na UNICAMP. Sempre passo pelo acesso quando vou à casa dos Caldas Machado Ramos, mas entrar mesmo, a última vez foi em 1990, para assistir o trabalho de graduação do meu amadoidolatrado
Rogério Migliorini pela primeira turma do curso superior de Dança, criado e interpretado sob o tema
Dorme, dorme, Frankenstein. E quase 20 anos depois, eu voltava àquela Universidade falando sobre o mesmo mito, agora ilustrando o parto sem alma que se tornou o parto normal que pratica, quando pratica, o sistema obstétrico vigente.
E além da reentrância na UNICAMP passei em frente ao CAISM e adentrei a Faculdade de Ciências Médicas, cenários de tantas histórias ouvidas nos últimos anos de ativista – sendo que de manhãzinha passei pelo Leonor Mendes de Barros a caminho de pegar mamã. Tantos símbolos.
E o debate foi sobre o
OrgasmicBirth, documentário produzido por Debra Pascali-Bonaro - educadora perinatal e professora de midwifery (parteria) nas faculdades de medicina da Universidade da Pensilvânia e na Estadual de Nova York - que assisti pela segunda vez, a primeira chorando ao lado de
Deborah Delage, amiga pessoal e da
Parto do Princípio, e a segunda agora, chorando ao lado da Ana Paula Caldas, amiga e cobeth na vida e no ativismo, ouvindo no filme o que ouvi pela primeira vez da própria AnaPaula numa lista de discussão sobre parto, numa época em que eu acreditava que a UTI havia salvo minha filha:
o sistema médico-hospital quase mata para em seguida aparecer como salvador dos bebês. Que risco a humanidade correu de não vingar, com tanto insucesso como regra no nascimento.
Ter levado minha mãe comigo foi outra coisa muito simbólica. Porque ela não faz o tipo mãe-de-miss, nem eu faço o tipo filha-miss (not really kk), ou seja, não fazemos coisas juntas, mas sei que quando começou o filme eu pensei: dels, eu trouxe a minha mãe pra assistir parto com orgasmo!? E coray. E não é que a adrenalina da sensação de fio (fia? rs) da navalha fez bem até pra dislexia?
Obviamente todo dito até aqui é pura egotrip, e não é nada perto do que a coisa foi.
Primeiro, que eu era a única mortal na mesa assim composta:
Lucía Caldeyro, doula;
Ana Paula Caldas Machado, neonatologista, ex-CAISM atual Grupo Samaúma;
Flora Barbosa enfª obstétrica da casa de parto do Sapopemba,
Jorge Kuhn, obstetraparteiroícone e
Hugo Sabatino, obstetra do CAISM, pioneiro no uso da cadeira para parto de cócoras. O debate foi organizado e moderado pela jornalista e ativista e tudodebom
Luciana Benatti, abrindo exposição de fotos
Parto com Prazer, de
Marcelo Min. Tudo filmado pela
Dani Buono, jornalista, videoparteira, amiga pessoal e ativista da
Parto do Princípio.
E entre Ana Paula e Hugo, esta polipatinha: Roselene (who? rs), muito honrada, pela
Parto do Princípio.
No auditório a maioria era a moçada da enfermagem, alguns médicos, doulas, psicólogas, fisioterapeutas (aliás, conheci
Renata Olah, fisiodoula e
ppzete!). Havia grávidas. Uma delas veio falar comigo depois da apresentação, e foi um grande presente ouvir que ela e o namorado querem sentir prazer no parto. Bom parto, queridos. Sementes...
Então. E ficou mais uma vez enfatizada a importância do papel da mulher na mudança do paradigma. Abandonar a casca do intervencionismo por compreensão de que o parto é um evento fisiológico que prescinde do médico no mais das vezes é para os geniais como Jorge Kuhn, até hoje plantonista do Leonor Mendes de Barros, até hoje incansável no respeito ao corpo feminino, esteja a mulher consciente ou inconsciente do respeito que deveras merece. Amei ouvir Lucía Caldeyro, tão colorida e doce. E Flora contando da Casa de Parto de Sapopemba, do oásis invisível que são essas Casas, pouco a pouco sendo fechadas pela força do corporativismo que destrói coisas belas, as últimas labaredas de um fogo que será apagado, estou certa disso.
A mensagem que fica: o parto sem alma imposto pelo sistema obstétrico hoje é perversão, é lesivo, é vilipêndio. Parir com prazer é aquisição evolutiva e deve ser encarado não como um prêmio, mas como um direito básico pelo qual exigir, independente do grau de consciência desse direito.
E essencialmente e por falar em imaginário: o filme de Debra Pascali-Bonaro e as fotos de Marcelo Min URGEM ser vistos, por todo mundo, por todo o mundo.
Parto com Prazer
Exposição de fotos de Marcelo Min
Das 8h30 às 17h30, de segunda a sexta-feira
Espaço das Artes - Saguão da Faculdade de Ciências Médicas / UNICAMP
Rua Tessália Vieira de Camargo, 126 - Campinas